O Rio Grande do Sul vive um novo e preocupante capítulo no combate à dengue. Em um cenário historicamente protegido pelo frio, o mosquito Aedes aegypti encontrou condições favoráveis para se proliferar. Até 8 de maio, o estado somava 15.643 casos confirmados e oito mortes. Especialistas alertam: o avanço da doença no Sul do país é um reflexo direto das mudanças climáticas, agravado por falhas estruturais e desigualdade social.

Com uma taxa de transmissão superior a 2,08, o atual surto cresce em ritmo semelhante ao observado nos primeiros meses da pandemia de Covid-19. Ao todo, 474 municípios gaúchos estão infestados pelo mosquito – dois a mais que no mesmo período do ano passado.

Clima mais quente impulsiona o vetor

“O que antes era raro começa a se tornar comum”, afirma Diego Ricardo Xavier, pesquisador da Fiocruz. Segundo ele, o aumento das temperaturas, os invernos mais amenos e a chegada antecipada da primavera permitem que o ciclo do vírus continue ativo o ano inteiro, inclusive em regiões montanhosas e subtropicais.

Leia Também:

A epidemiologista Cláudia Codeço, coordenadora da plataforma InfoDengue, reforça: “Mesmo mudanças sutis no clima podem gerar grandes impactos no comportamento do vetor. A dengue já não respeita mais os limites geográficos que antes a restringiam.”

País registra alta nacional nos casos

De acordo com dados da Fiocruz, até meados de abril o Brasil já havia registrado 1,7 milhão de casos suspeitos de dengue. Mais de dois terços foram classificados como prováveis – um aumento de quase 30% em relação ao ano anterior.

Estudos internacionais também corroboram o alerta. Pesquisa da Universidade Stanford, nos EUA, aponta que cerca de 19% das infecções globais por dengue já podem ser atribuídas ao aquecimento global. O risco é que, mantido o ritmo atual, o número de casos dobre em áreas endêmicas nas próximas décadas.

Impacto ampliado pelas desigualdades sociais

Para além das mudanças no clima, o avanço da dengue está diretamente ligado à desigualdade urbana. Regiões com falta de saneamento, acesso limitado à água e coleta irregular de lixo são mais vulneráveis. “É uma combinação explosiva. Sem infraestrutura adequada, o mosquito encontra espaço para se multiplicar”, avalia Xavier.

A crise hídrica de 2014 em São Paulo é um exemplo citado por especialistas: com o racionamento, famílias passaram a armazenar água em casa, criando criadouros artificiais. “A dengue é um problema ambiental, urbano e social. Sem atacar a raiz, vamos repetir os surtos todos os anos”, diz o pesquisador.

Dengue no Brasil: breve histórico

Embora os primeiros registros da doença datem de séculos atrás, foi apenas no século 20 que o Brasil passou a enfrentar epidemias mais frequentes. O mosquito transmissor chegou ao país trazido por navios negreiros, e após uma tentativa bem-sucedida de erradicação nos anos 1950, retornou nas décadas seguintes com força.

Hoje, o Aedes aegypti está presente em praticamente todo o território nacional. Ele é vetor de quatro sorotipos do vírus da dengue, além de outras doenças como Zika e chikungunya. A infecção, geralmente autolimitada, pode evoluir para formas graves e exigir internação, especialmente se não houver hidratação adequada.

Iniciativas de combate e vacinação

Diante da expansão da doença, o Ministério da Saúde aposta em novas estratégias. Uma delas é o uso da bactéria Wolbachia, que reduz a capacidade de transmissão do mosquito. Projetos-piloto no Brasil já apresentaram quedas de até 70% nos casos de dengue em áreas como Niterói (RJ).

Na vacinação, a principal esperança está na Qdenga, aprovada para uso em pessoas entre 4 e 60 anos. O Instituto Butantan também desenvolve uma vacina nacional de dose única, com eficácia próxima de 80%, que aguarda aprovação da Anvisa.

Desafio exige resposta coordenada

Especialistas ressaltam que o controle da dengue exige mais do que ações pontuais. “Precisamos de planos de enfrentamento integrados, com vigilância constante, capacitação das equipes de saúde e campanhas permanentes de prevenção”, defende Cláudia Codeço.

Para Diego Xavier, a única forma de conter a escalada da dengue é investir em infraestrutura urbana, saneamento, educação ambiental e adaptação às novas realidades climáticas. “A situação já está fora do controle. Agora é mitigar os danos. Não existe solução mágica — temos que agir em todas as frentes.”

FONTE/CRÉDITOS: Redação