Quando Penelope, de 5 anos, de Colchester, no Reino Unido, recebeu a nova Barbie da Mattel, não se interessou pelo vestido nem pelo cabelo. Seus olhos foram direto para os protetores auriculares da boneca. “Ela é igual a mim”, disse à mãe, Tonya, ao reconhecer os fones que também fazem parte de sua rotina. Penelope é autista e utiliza os acessórios para reduzir estímulos sonoros.

O momento foi registrado pela BBC News e se tornou emblemático do lançamento da primeira Barbie com autismo. Os sobrenomes da menina e da mãe não foram divulgados para preservar a identidade da criança.

Pesquisa e desenvolvimento

O projeto da Barbie autista foi conduzido pela Mattel em parceria com a Autistic Self Advocacy Network (ASAN), organização norte-americana formada e liderada por pessoas autistas. O envolvimento da ASAN desde o início buscou evitar estereótipos e garantir uma representação autêntica e cuidadosa.

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Segundo reportagens do The Guardian, o desafio estava em traduzir uma condição invisível em elementos concretos no cotidiano infantil. Ao contrário de bonecas inclusivas como a Barbie com síndrome de Down, cujas características físicas são mais evidentes, o autismo exigiu atenção a aspectos comportamentais, sensoriais e funcionais. O desenvolvimento durou cerca de 18 meses.

Detalhes guiados pela ASAN

A ASAN orientou decisões essenciais do design. O olhar da boneca, por exemplo, não é fixo no jogador, refletindo como muitas pessoas autistas evitam contato visual prolongado para se concentrar ou se autorregular.

As articulações adicionais nos cotovelos e punhos permitem movimentos repetitivos de autorregulação, conhecidos como stimming, como balançar as mãos. O vestuário também foi cuidadosamente pensado: tecidos barulhentos foram evitados, e a tecnologia Easy Dressing garantiu que o vestido não possuísse botões pequenos, zíperes complexos ou fechos difíceis. A ideia é permitir que a criança vista a boneca sozinha, promovendo autonomia e reduzindo frustrações, especialmente considerando desafios de coordenação motora fina comuns entre pessoas autistas.

Inclusão na linha principal da Barbie

Ao contrário de edições especiais, a Barbie autista integra a linha Barbie Fashionistas, conhecida pela diversidade. A coleção já inclui bonecas com vitiligo, prótese na perna e cadeiras de rodas. Nos Estados Unidos, a boneca foi lançada pelo mesmo preço médio das demais da linha, cerca de 10 dólares, reforçando a proposta de inclusão sem distinção.

O lançamento também trouxe novidades para os bonecos masculinos, incluindo o primeiro Ken com vitiligo e uma nova versão com prótese na perna, ampliando a diversidade.

Representatividade e impacto social

No Reino Unido, a autora e ativista Ellie Middleton, diagnosticada tardiamente com autismo e TDAH, comentou sobre o impacto cultural da boneca. Em entrevista ao The Guardian, destacou a importância de ver acessórios como fidget spinner e tablets de comunicação alternativa como itens comuns do universo Barbie. Segundo Ellie, a boneca pode ajudar meninas a se sentirem vistas e a compreenderem suas diferenças antes de se sentirem “erradas”.

A National Autistic Society classificou o lançamento como um marco, ressaltando que brincar é uma forma essencial de aprender sobre o mundo. Ao incluir o autismo nesse universo, a boneca contribui para normalizar a diversidade desde cedo.

Tonya, mãe de Penelope, reforçou à BBC News que o impacto da boneca vai além da identificação da filha. “É fundamental que outras crianças também vejam Penelope representada”, disse. A expectativa é que, ao crescerem brincando com uma boneca que usa fones ou realiza movimentos repetitivos, elas aprendam a perceber esses comportamentos como naturais na vida real.