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O desastre das cheias trouxe mais incertezas e desafios para a agricultura familiar no Rio Grande do Sul. Produtores rurais em áreas inundadas enfrentam perdas de culturas, rebanhos e isolamento devido à destruição de estradas, casas e galpões, gerando desesperança e dúvidas sobre o futuro da produção agropecuária.
Em General Câmara, a 76 quilômetros de Porto Alegre, o pecuarista Roberto Luiz da Silva testemunhou sua vida de trabalho ser engolida pelas águas do Rio Taquari. Ele, junto com sua esposa Erecê Fernandes e suas filhas Bruna, grávida de sete meses, e Raíssa, lutaram para resgatar vacas leiteiras e suas próprias vidas durante a inundação. Em um relato ao Correio do Povo, Roberto descreveu a agonia de ver seu sustento desaparecer diante de seus olhos. Os esforços físicos e financeiros feitos para melhorar a produção leiteira foram perdidos na lama. E assim como Roberto, muitas outras famílias rurais buscam entender como seguir em frente após essa catástrofe.
“Nasci e fui criado aqui. Tenho 46 anos. Nunca vi a enchente chegar em casa. Era uma parte baixa, a água chegava ao redor, mas nunca dentro de casa. Estávamos acostumados. Quando a água subia, nós preparávamos, colocávamos as coisas para cima e ficávamos tranquilos, com mantimentos, sem grandes preocupações. Desta vez foi diferente. Preparamo-nos, mas a água veio. Disseram que seria grande, mas pensamos que não teríamos problemas. Poderia ser mais alta do que as outras vezes, mas achávamos que não seria um problema. Ficamos, e a situação piorou. Trabalho com laticínios, tinha 36 animais na propriedade.
A água subiu. Eu pensei, o que farei? As vacas são meu sustento. Amarramos elas aos tratores, que colocamos fora dos galpões, na esperança de salvá-las. Pensei, irei até o fim, não posso desistir, não posso perder tudo aqui. Como pagarei minhas contas? Temos dívidas, investimentos. Passamos a noite no telhado, pois a água começou a entrar na casa, enquanto monitorávamos os animais.
A água subiu, alcançou a barriga, as costelas, cobriu os animais. Eu pensei, vou cortar as cordas para que eles possam escapar, pelo menos não morrerão aqui. Mas não adiantava, precisávamos ser realistas. As notícias não eram boas. A água continuaria a subir. Cortei todas as cordas e disse à minha família: vamos pedir socorro, aqui não dá mais. Perdemos tudo, foi tudo embora. Construí um novo galpão no ano passado, um grande investimento, com ordenha, sala de alimentação, investi muito no leite. Estou na atividade há 13 anos. No ano passado, fiz grandes investimentos. Tudo ficou debaixo d'água. Na semana da enchente, comprei ração, adubo, sementes de azevém para as vacas.
Tenho uma conta de R$ 6 mil para pagar. Como pagarei? Está tudo perdido. Carro, trator, a casa com todos os móveis, coisas que levamos 25 anos para conseguir, lutando. Em uma noite, tudo se foi. Estamos morando de favor, minha família e eu, em um galpão que nos emprestaram, tentando entender o que faremos agora. Desde que saímos da propriedade, não consigo parar de pensar em não voltar mais lá.
Não há mais o que fazer. Investir em vacas novamente? Tinha 80 carretas de silagem de milho, três hectares de milho para colher. Perdemos tudo. Dos animais, apenas três vacas sobreviveram, mas estão mortas. É uma realidade triste, tudo o que estamos vivendo. Estamos acostumados com o conforto de casa, cama boa, travesseiro macio. Agora estamos dormindo em colchões velhos, não estou reclamando, graças a Deus, há pessoas que nos estenderam a mão. À noite, cochilo, acordo e começo a pensar na vida, em nossas coisas. É triste. É isso que eu e minha família estamos enfrentando. Não desejo isso nem ao meu pior inimigo. Não temos mais nada, nem mesmo uma bicicleta para andar. Estou perdido, sem rumo. Não sei para onde vamos, o que faremos. Só quero não voltar para lá. Não podemos mais viver lá.”
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Quentuchas Notícias
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